Resposta à uma amiga: "como vc tá?"


com a maré...
e dopado demais para escrever:
tarjas pretas na cabeçã
e vermelhas no peito...
pois a dor pulsa no ritmo do meu coração
latejando do pé
a cabeça
e sem muita vizão de futuro
que não seja,
ao menos amor
amor

num  frasco-carne de novidades constantes
e choros em coros
corais de bençãos atracando minha vida
numa pequena atol de maravilhas nascentes
ao, menos, amor
amor

mesmo pequena a frente das lamurias doloridas
há felicidade na tristeza, no sofrimento...
uma felicidade crescente aos dias, semanas, anos...
numa fração de tempo quase imperceptivel
centimetros que passam num piscar
ao revelar
ao menos, amor!

Poliedro

Nasce em qual quer terreno
Do mais impróprio
Ao mais fértil
Ele germina
(regado bem cuidado acarinhado aninhado…)
Ele cresce
                Fortalece
                               Floresce
                                               Ramifica
                                                               Frutifica
                                                                              Reramifica

Vertente vortice de tangentes
Ou em paralelas retas
Ou em cartesianas vidas
Ou em sentimentos convergentes
Ou em parábolas divergentes
Crescente decrescente ou apenas retilíneo
É plano
Analítico
Espacial
De geométrica difícil
Um mais um nem sempre são dois
Podem ser três
Quatro
Ou n
Uma equação em inequações
Uma inequação em equações
Exatas inexatas deterninadas indeterminadas
Ou simplesmente sem resposta

Não tem separação de eus
Egos
Ou superegos
Uma mistura consciente ou inconsciente
De consciências subconsciências e inconsciências

Nem formulas
Tampouco regras
Nem teorias
São teoremas em poemas
Matemática pura em poesias
Amor prismas filosofias(ais)

A cadeira vazia

À casa, outrora, erguida em risos
altos risos altos
vozes elevadas em discordâncias
paredes pintadas de causos de infâncias
assoalho plano pleno de estorias de pescador...
...resta a cabeceira da mesa deserta
num árido clima de despedida

Aos olhos, unidos ungidos em lágrimas,
lentes escuras, num afã de esconder-se do sol intenso da saudade
oásis, oásis perene de rios de desalento

Ao peito, seco ar cortante de lembranças
humanas em acertos, mais humanas em erros
um nó tão denso e real, que nem parece miragem,
amarrando o presente, ao passado e ao futuro

Ao passo que passa o passatempo do tempo
cruzadas, damas, futebol, musicas e um pandeiro
seguem em algum lugar do tempo
zanzando naquela sala
entre o banco e a cadeira
(a derradeira cadeira, já vazia)

Num ultimo apelo, vejo-te
numa vazia cadeira
com o ventilador rebelando teus brancos...
...

A saudade é sede
em um beduíno perdido no deserto
...

A dor é ver o lar
A mesa
A sala
A cadeira solitária
Vazia.

365 dias

7 dias tensos
densos
na atenção redobrada
da U.T.I. neonatal
7 dias densos
tensos
em aprendizagem
da alimentação ao curativo
da amamentação ao banho
liberada depois do carnaval

31 dias atensiosos
cudadosos
zelosos e insones
em sonos velados
em banhos exitantes
em curativos constantes
arrotos cocôs gofadas...
aos seios da mãe amamentação
ao peito do pai, carinho e colchão

61 dias celebrados
em mêsversário
e todo cuidado
de pai e mãe
de primeira viagem
ninada em amor

90 dias sorrisos
sorrisos
rolando numa boca nua

120 dias chorosos
primeiras frutas
e a rejeição ao seio materno
vitaminas mingaus e assaduras
no meio de um engatinhar na cama
e de reclamação insistente

150 dias engatinhando
brincando no tapete-tatame
com pais, tios, tias e avós
babados e bestas

180 dias de vida
vida celebrada
comemorada
em mais um mêsversário
e os primeiros passos
inseguros e apoiados em algum lugar
sofá cadeira estante
dvds e cds jogados para cima
tirados da caixa
pisados mordidos em pequeninos
dentinhos serrilhados

210 dias de correria
na sua ferrari-andador
perseguindo curiosa
e com furor
todos cachorros da familia
que fugiam ao vê-la chegar

240 dias de companhia
não podiamos vacilar
chegava na cozinha e virava as panelas
na fruteira só dava ela
no banho um só festa
e que festança
que abria o berreiro
se a tirassem da lavanderia
do balde da banheira do chuveiro
ou da piscina

270 dias de falação
reclamação
gritos para lá
mama
papá
dada
éééé
gritos pra cá
e mais reclamação
e chamação: querendo partilhar
nossa companhia em brincadeiras
e risos e sopros e cadê?
Achou!

300 dias escorando-se
segurando-se roda a casa
bole em tudo
morde tudo
adora ler
comendo as paginas
acorda o pai
acorda a mãe
arrisca andar do pai para a mãe
e da mãe para o pai
e não perde a mania de dormir solta
e leve em meu peito

330 dias e a surpresa
afasta as tristezas
numa andada repentina
solta
sozinha
para pegar seus brinquedinhos
e os dedinhos a chamar
a as mãosinhas a dar tchau
e a não mais parar de andar

365 dias é festa
é festa em meu coração
na cidade
e correria entre confetes e serpentinas
alegria da mãe
a vida do pai
o gosto e a supresa e o carinho dos avôs
as brincadeiras e as caretas e o amor das avós
e correria num bailinho de mascaras e fantasia
desfilava a energia e a alegria
de quem nasceu predestinada
num domingo Real
no reino do carnaval
com vontade de viver abençoada
ensinando-me a viver
ensinando mais que um professor
ensinando-me o amor.